ARTIGO
Servidores, reajuste e vergonha
Vilson Romero
O artigo primeiro da Lei
10.331, de 18 de dezembro de 2001, que regulamenta o inciso X
do artigo 37 da Constituição Federal é taxativo:
As remunerações e os subsídios dos
servidores públicos dos Poderes Executivo, Legislativo
e Judiciário da União, das autarquias e fundações
públicas federais, serão revistos, na forma do inciso
X do art. 37 da Constituição, no mês de janeiro,
sem distinção de índices, extensivos aos
proventos da inatividade e às pensões. Lá
na Carta Magna, no mencionado inciso do artigo 37, está
assegurada a revisão geral anual.
Como não havia sido divulgada nenhuma notícia
sobre o assunto desde o início do ano, os servidores públicos
ficaram muito esperançosos quando, no dia 23 de fevereiro,
durante a cerimônia de entrega do Prêmio Nacional
de Gestão Pública, o presidente da República
criticou a concepção de Estado Mínimo de
seu antecessor e defendeu salários mais justos e maiores
para o funcionalismo público.
Se somarmos a isto os índices de inflação
que variaram, nos últimos doze meses, entre 6,13% (INPC/IBGE)
e 14,67% (IPA do IGP-DI/FGV) e os anunciados reajustes setoriais
(6,13% para a energia elétrica fornecida pela Light, no
Rio, ou 11,3% nas contas de água do DMAE, de Porto Alegre,
são alguns exemplos) disseminados em todo o País,
nada mais justo que se pensar em reposição, no mínimo,
das perdas oficiais, para este conjunto de trabalhadores.
A despeito de a União ter estruturado ou
reorganizado 51 carreiras e 112 tabelas de salários nos
anos de 2003 e 2004, os salários estão congelados
desde o início do atual governo. Quando no início
do mandato do Partido dos Trabalhadores e sua coalizão
no Palácio do Planalto, o então ministro do Planejamento,
Orçamento e Gestão convocou uma entrevista coletiva
de imprensa para anunciar 1% de aumento, o funcionalismo público
federal pensou que não poderia haver coisa pior e mais
afrontosa, quase um deboche.
Mas, depois de tudo isto, a surpresa. Como diz o dito popular:
o que está ruim, pode sempre piorar. No caso do reajuste
dos servidores, piorou 10 vezes. O governo remeteu, há
poucos dias, ao Congresso Nacional, dando-se ao trabalho de uma
longa Exposição de Motivos, de número 0043/2005/MP/MF,
o Projeto de Lei, com três artigos, onde ficam reajustados
em 0,1% (notem bem: zero vírgula um por cento!) os salários
dos servidores públicos, aplicando-se o percentual às
aposentadorias e pensões.
Como o presidente havia dito que é
necessário que a gente tenha uma relação
de respeito com o servidor ..., esperava-se providência
mais dignificante de recuperação do poder aquisitivo
dos trabalhadores de Estado.
Com o projeto de lei de tão estupendo
aumento, parece que ou o discurso estava distante da realidade
ou as autoridades federais pretendem valorizar somente outra casta
de servidores: os ocupantes dos cargos de confiança, na
linha da equiparação pretendida pelo novo presidente
da Câmara dos Deputados, que foi abortada por enquanto,
mas não deve ter sido arquivada de todo.
Como diz um famoso bordão da TV brasileira:
Isto é uma vergonha!.
Vilson Antonio Romero é jornalista, conselheiro
da Associação Riograndense de Imprensa e consultor
da Fundação Anfip de Estudos da Seguridade Social
vilson.romero@terra.com.br
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