Fique
bem-informado
Previdência do Servidor
é desafio para Dilma
01/12/2010
Com a tramitação parada na Câmara dos Deputados
desde 2007, o projeto de lei que cria a Fundação
de Previdência Complementar do Servidor Público
(Funpresp) seria uma das alternativas para reduzir o rombo nas
contas públicas com as aposentadorias e as pensões
do funcionalismo, estimado em R$ 48,5 bilhões este ano.
Mas, se quiser aprovar a proposta no Congresso, a futura presidente,
Dilma Rousseff, terá de enfrentar o forte lobby da categoria.
Os sindicatos temem que muitas carreiras de Estado percam conquistas
e têm conseguido sensibilizar os parlamentares a adiar
a votação. Os defensores da Funpresp afirmam que
há desinformação e que os servidores não
teriam qualquer tipo de prejuízo.
A presidente eleita vai se deparar, já no início
de 2011, com o debate para a criação do fundo de
pensão do funcionalismo. A proposta arrasta-se no Congresso
desde 2007 e ameaça contas públicas com rombo de
R$ 48,5 bi
Pedra no caminho dos últimos dois presidentes da República,
a previdência do funcionalismo também é obstáculo à gestão
Dilma Rousseff. Se quiser melhorar a qualidade das contas, reduzir
o gasto com pessoal e destinar mais recursos a obras e investimentos,
a presidente eleita terá de enfrentar o lobby pesado dos
servidores e apoiar a aprovação do Projeto de Lei
nº1992, que cria a Fundação de Previdência
Complementar do Servidor Público (Funpresp) e está parado
na Câmara dos Deputados desde 2007. Se estivesse em vigor,
a proposta poderia ajudar a estancar o rombo do sistema de pensões
e aposentadorias estatal. Em 2009, o deficit foi da ordem de
R$ 46,9 bilhões — 1,49% do Produto Interno Bruto
(PIB). Para este ano, a estimativa oficial é de um buraco
de R$ 48,5 bilhões — 1,46% do PIB.
Especialistas garantem que o principal entrave à tramitação
do PL no Congresso Nacional é o entendimento que os servidores
têm de que a mudança seria prejudicial às
carreiras. Por meio de suas entidades sindicais, funcionários
de quase todos os órgãos resistem a aceitar as
alterações. O governo e os partidos da base aliada,
por sua vez, cedem às pressões. Do ponto de vista
puramente financeiro, o projeto, num primeiro momento, eleva
o gasto público.
Cálculos do economista Marcelo Abi-Ramia Caetano, do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indicam
que no momento da criação do fundo a União
arcará com um custo adicional de 0,1% do PIB. A despesa
aumenta porque, como patrão, o Estado terá de depositar
sua parte (contribuição patronal), enquanto o empregado
tem a obrigação de fazer o mesmo. Com isso, o Tesouro
Nacional deixa de receber os 11% da contribuição
dos novos servidores.
Despesa crescente
Além de perder a cota sobre o salário que exceder
o teto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — hoje
em R$ 3.467,40 — e também passar a contribuir para
o fundo, o governo continua bancando as aposentadorias e pensões
dos atuais inativos do setor público. Como essa despesa
já é na casa dos bilhões, qualquer acréscimo — o
0,1% do PIB representa milhões — pode pesar na conta. “O
governo precisa fazer o projeto andar porque, ao longo do tempo,
os benefícios aparecerão com clareza”, justifica
o ex-ministro da Previdência Social, José Cechin.
A seu ver, sem o fundo de pensão, a despesa com o pagamento
de benefícios será crescente ao longo dos anos,
com o governo arcando com o pagamento integral das aposentadorias
e pensões do setor público, bastante superiores
aos benefícios pagos pelo INSS.
Abi-Ramia chama a atenção para a injustiça
que o governo comete ao comprometer recursos públicos — o
dinheiro do Tesouro Nacional é, na verdade, constituído
de contribuições de toda a sociedade via pagamento
de impostos — com a parcela da população
mais aquinhoada. “Ninguém tem nada com isso, se
uma pessoa consegue poupar e contribuir para a sua própria
aposentadoria em níveis elevados. Mas quando é o
governo que complementa essa conta, a situação
muda de figura”, adverte.
O setor público federal gasta praticamente o mesmo que
o INSS. A diferença é que o INSS paga benefícios
a mais de 23 milhões de segurados, enquanto que no setor
público federal o universo de atendidos é de cerca
de 1 milhão de pessoas. A diferença está no
valor dos benefícios. No INSS, o benefício médio é da
ordem de R$ 765. O máximo que a Previdência Social
paga aos trabalhadores da iniciativa privada é R$ 3.467,40.
No funcionalismo, a conta é bem diferente: dentro do Poder
Executivo, a aposentadoria média é de R$ 3.967,
enquanto que no Judiciário e no Legislativo o valor médio
supera R$ 14 mil.
Poupança individual
Com o fundo de pensão dos servidores, a conta passa a
ser outra. O governo deixará de ser responsável
pelo pagamento integral da aposentadoria que superar o teto do
INSS. Por isso, a despesa baixará ao longo do tempo. Pelos
cálculos de Abi-Ramia, após 20 anos da criação
do fundo, a despesa ainda será positiva, mas declinante.
A partir da terceira década, os benefícios da limitação
das aposentadorias ao teto do INSS começarão a
superar os custos associados à perda de arrecadação.
Nessa fase, os ganhos fiscais atingirão 0,2% do PIB anualmente.
Para Cechin, o que explica a enorme resistência dos servidores
ao projeto que está no Congresso Nacional é o desconhecimento
do que a proposta significa. “Não afeta os atuais
servidores, daí porque é inexplicável os
representantes da categoria estarem defendendo futuros servidores
que, na prática, não existem”, completa.
Na opinião do ex-ministro, até mesmo para os novos
servidores o projeto é bom. Hoje, se um servidor for para
a iniciativa privada antes de se aposentar só leva a contagem
do tempo de contribuição. Como no fundo de pensão
o dinheiro acumulado na poupança individualizada é do
servidor, se ele deixar a administração pública
levará também os recursos da conta individual capitalizada.
Na avaliação de Cechin, a elevação
do gasto inicial, prevista com a criação do fundo,
não pode ser usada como desculpa. “O gasto é muito
pequeno frente à enorme vantagem da complementação
das aposentadorias mais elevadas deixar de ser por conta do Tesouro”,
reforça. Além disso, argumenta ele, com a criação
do fundo, o governo estará dando um sinal importante para
a solvência do Estado no futuro.
FLEXIBILIDADE A ESTADOS E MUNICÍPIOS
»
O Conselho Monetário Nacional (CMN) flexibilizou as regras
para a aplicação de recursos recolhidos por Regimes
Próprios de Previdência Social (RPPS) mantidos por
estados e municípios. Com a alteração na
norma, o governo decidiu facilitar o aporte em fundos de investimento
e acabar com o limitador nos investimentos de renda fixa. A Resolução
nº 3.922 aprovada pelo CMN também ampliou o conceito
de ativo para os RPPS, que agora passam a contabilizar ativos
financeiros e patrimoniais para efeito de aplicação.
O patrimônio dos planos enquadrados no modelo RPPS está em
cerca de R$ 50 bilhões, conforme o Ministério da
Previdência. É esse montante de recursos que garante
o pagamento de aposentadorias e pensões de servidores
públicos. Os regimes próprios abrigam 20 milhões
de pessoas, entre contribuintes diretos, dependentes e familiares.
As mudanças nas regras de movimentação e
destino do dinheiro recolhido têm como objetivo proporcionar
maior rentabilidade e liquidez aos valores aplicados, garantindo
a solvência dos planos de regimes próprios em longo
prazo.
Autor(es):
Vânia Cristino
Correio Braziliense - 01/12/2010 |