Fique
bem-informado
Fundo de pensão
vira batalha no Congresso 25/08/2011
Aprovada numa comissão da Câmara sob vaias e protestos
de funcionários públicos, a criação
da previdência complementar da categoria deve ser concluída
na próxima semana. No entanto, emendas apresentadas podem
tirar da nova regra as carreiras mais bem remuneradas do poder
público.
Votação apertada foi primeiro passo para criar
previdência complementar para os Três Poderes. Apreciação
de destaques contra a proposta, na semana que vem, será decisiva.
De nada adiantaram a gritaria, as vaias e o tumulto provocado
na Comissão de Trabalho, Administração
e Serviço Público por grupos de servidores. Com
um quórum apertadíssimo — 13 votos a favor
(o mínimo necessário) e sete contra —,
foi finalmente aprovado ontem o projeto de lei que cria o fundo
de pensão único do funcionalismo do Executivo,
Legislativo e Judiciário. Mas tudo pode ir por água
abaixo caso sejam aprovados determinados destaques de um total
de 12 apresentados por parlamentares, que serão votados,
separadamente, na quarta-feira que vem. "Tem um que pede,
simplesmente, que se acabe com o fundo", afirmou o relator
Silvio Costa, que também é presidente da comissão.
O instrumento legislativo dos destaques permite apenas suprimir
artigos do projeto aprovado ou reincluir emendas que foram
rejeitadas na votação do substitutivo ao projeto
de lei — não pode criar uma outra regra. Uma dessas
emendas deixava de fora da nova regra os servidores de carreiras
típicas do Estado, do Judiciário e membros do
Ministério Público. Ou seja, somente os chamados
servidores "barnabés" passariam a ter a aposentadoria
paga pelo fundo de pensão.
O relator classificou a maior parte dos destaques de corporativista.
Eles foram apresentados por bancadas de partidos que fazem
parte da base aliada — PSB, PTB, PcdoB e PDT. Antes de
colocá-los em votação, Costa vai procurar
o governo. "Vou ver se a ministra Ideli Salvati (de Relações
Institucionais) e o ministro Garibaldi Alves (da Previdência
Social) se empenham para conseguir a retirada dos destaques",
explicou Costa. Já o PSDB propôs a supressão
de três artigos que tratam da administração
do fundo, entre eles, o que autoriza o presidente da República
a nomear os membros que deverão compor provisoriamente
o conselho deliberativo e fiscal do sistema de previdência
complementar.
Pela proposta aprovada, quem entrar no serviço público
após a sua aprovação terá direito à aposentadoria
garantida pelo governo somente até o teto de benefícios
do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), hoje em R$ 3.689,66.
Para receber acima desse valor, o servidor terá de contribuir
para o fundo complementar — a quantia adicional dependerá da
boa administração das contribuições
paritárias dos participantes e da União. Os atuais
servidores continuarão recebendo seus benefícios,
praticamente iguais ao salário da ativa, pelas regras
vigentes. Eles podem, se quiserem, aderir ao futuro sistema.
Demora
Apesar da aprovação, tudo indica que o andamento
da proposta, que tramita na Câmara desde 2007, ainda vai
demorar. O fundo ainda tem de passar pela Comissão de
Seguridade Social e Família e pela de Finanças
e Tributação. O projeto tramita em caráter
terminativo e, se não fosse polêmico, não
teria que passar pelo plenário da casa. Mas nem o presidente
da Comissão de Trabalho acredita nisso. Silvio Costa está convencido
de que, em algum momento, surgirá um requerimento que
levará a proposta para o plenário. De lá,
se for aprovada, o projeto seguira para a avaliação
dos senadores.
Costa atribui a resistência ao fundo ao enorme corporativismo
da classe, que tem muito apoio entre os parlamentares. Além
da manifestação dentro da Câmara, servidores
se juntaram ontem a integrantes do Movimento Sem-Terra (MST)
para protestar nos gramados da Esplanada dos Ministérios
contra o projeto que cria a previdência complementar e
para exigir aumento salarial.
"
Se não tivéssemos aprovado o projeto, provavelmente,
daqui a uns dez anos, a União não teria recursos
para pagar os atuais servidores públicos", disse
o relator. O deficit da Previdência do setor público é crescente.
Em 2010, o Tesouro teve que desembolsar R$ 52 bilhões
para fechar a conta dos benefícios pagos a 950 mil inativos.
Para este ano, o rombo esperado é de R$ 56 bilhões. "Ou
estancamos a sangria ou faltará dinheiro daqui a 10 anos
para o pagamento dos aposentados do setor público",
assegurou.
CONTRIBUIÇÃO
Hoje, servidores públicos ativos e inativos dos Três
Poderes contribuem com alíquota de 11% sobre o salário
total para custear as suas aposentadorias e pensões no
sistema próprio. Os novos que ingressarem no serviço
público a partir da aprovação do fundo complementar
contribuirão com 11% até o teto do INSS. Acima
disso, a alíquota será de até 7,5%. A União
recolherá o mesmo percentual.
Vânia Cristino
Correio Braziliense
|