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Entrevista com Duvanier Paiva, Secretário de RH do Governo
12/01/2012
No cargo desde junho de 2007, o secretário de Recursos
Humanos do Ministério doPlanejamento, Duvanier Paiva,
foi o responsável por negociar os acordos que promoveram
os maiores reajustes para o funcionalismo público federal
desde a redemocratização. Todos eles assinados
no segundo mandato do governo do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva.
Sem a intimidade com o movimento sindical que o seu antecessor
tinha, a presidente Dilma Rousseff optou por manter em seu
governo o mesmo negociador. Entretanto, se na era Lula Paiva
teve o papel de distribuir aos funcionários públicos
as benesses do crescimento econômicos, no primeiro ano
de governo Dilma seu papel foi o de segurar as categorias após
lhes passar as informações sobre os poucos, quase
nulos, reajustes de 2011.
"
Foi um ano difícil. Todo primeiro ano tem naturalmente
uma posição cautelosa em relação
a orçamento e gasto, principalmente com pessoal. E também
houve a crise internacional", disse em entrevista ao Valor.
Sua avaliação é de que em 2012 esse relacionamento
tende a ser mais conflituoso, não só pelas incertezas
da crise, mas também por ser ano eleitoral. Segundo ele,
além de o tempo para negociações diminuir,
a disputa política "se dissemina por todos os espaços".
Ele, porém, alerta: "O governo não faz concessão
por ser ano eleitoral". Nascido em São Paulo, ele
construiu boa parte de sua carreira no meio sindical. Foi assessor
político da CUT, secretário de Formação
da CUT-SP e idealizador e coordenador da Escola Sindical de São
Paulo. Veja a seguir trechos da entrevista ao Valor:
Valor: Há muita reclamação do funcionalismo
sobre a relação com Dilma. Por que?
Duvanier Paiva: Sempre houve greve e mobilização.
O sindicato é para isso mesmo.
Reclama, vem para cima. Está cumprindo o papel dele. Em
2011 tivemos um resultado político importante. Fizemos
a mesa permanente de negociação, o que significa
um exercício permanente do diálogo. Então
todo esse processo de conversação e de diálogo
permitiu que chegássemos a um momento em que os sindicatos
compreenderam a crise. Fizemos poucos acordos, atendemos demandas
represadas, com impacto orçamentário pequeno. Em
2012 haverá pouco impacto de pessoal.
Valor: Como avalia a relação de Dilma com o funcionalismo?
Paiva: Foi um ano difícil. Todo primeiro ano exige uma
posição cautelosa em relação a Orçamento
e gastos, principalmente com pessoal, um gasto polêmico
que a sociedade discute muito. Então houve cautela. Além
disso, foi um ano de crise internacional. Então o relacionamento
com o funcionalismo ficou difícil. Mas mesmo assim mantivemos
o diálogo, mostramos que os reajustes não viriam,
até porque os que foram dados no último período
Lula foram importantes.
Valor: Essa relação com Lula ajudou a segurar as
greves?
Paiva: Em 2007 e 2008 fizemos acordos de médio prazo a
serem pagos em três parcelas em 2008, 2009 e 2010. Algumas
classes tiveram resíduos em 2011. O governo Lula não
deu nada, negociou. Foram conquistas dos sindicatos, resultado
da mesa de negociação. Fizemos 48 acordos que resultaram
na reorganização de várias carreiras e de
toda a estrutura remuneratória do funcionalismo federal,
com resultados expressivos para várias carreiras da União.
Valor: Há uma mudança na relação
do governo Dilma com Lula?
Paiva: Não há. A comparação é óbvia
e natural, mas a presidenta tem demonstrado que é um governo
de continuidade em relação aos compromissos assumidos
pelo anterior, com a valorização do trabalhador
e dos segmentos mais vulneráveis da sociedade. As prioridades
mostram que há continuidade de governo. O fato de não
ser sindicalista não significa que ela não tenha
uma visão da importância da classe trabalhadora.
Algum sindicalista pode achar que não, que a relação
com Lula era diferenciada, mas no resultado não há diferença.
Exemplo disso é a política de salário mínimo.
Na nossa opinião, não há qualquer prejuízo
do ponto de vista histórico e político. Ela tem
compreensão das classes sindicais.
Valor: Mas praticamente todos estão falando em greve.
Paiva: É natural. Em 2011 teve esse problema da crise
e era também o primeiro ano de governo. Houve poucos reajustes.
Então neste ano vai ter uma pressão grande. A mesma
que encontramos em 2003, quando assumimos. Havia uma defasagem
[salarial] grande, que foi recuperada. Os sindicatos acham que
precisam conquistar o máximo agora porque em 2011 fizemos
só o necessário, ou seja, porque só atendemos à demanda
represada dos anos anteriores. Então é natural
que estejam se preparando para vir para cima da gente com toda
a força. Mas também estamos preparados. Nossa preparação é o
diálogo. Eles sabem que o que vai resolver é a
conversa na mesa de negociação.
Valor: Deve ser o ano mais difícil dos governos do PT?
Paiva: Tem uma dificuldade que é o fato de ser ano eleitoral.
O calendário encurta.
Valor: Qual o efeito de uma eleição nessa negociação?
Paiva: Em ano não eleitoral temos até agosto para
conversar, que é o prazo para o Orçamento ser enviado.
No ano eleitoral, temos que resolver, no máximo, em julho,
fim de junho. Temos menos tempo. E é um ano de disputa
política. Há um grau de mobilização
maior.
Valor: O governo tende a ceder mais?
Paiva: O governo não faz concessão por ser ano
eleitoral. O espaço de tempo para negociar é menor,
todos os interesses e projetos políticos estão
ligados, há intensa mobilização e debate,
tudo está em jogo e a disputa política acaba se
repetindo e se disseminando por todos os espaços. Mas
os próprios sindicalistas sabem que o governo não
vai ficar mais frágil ou ceder mais porque é um
ano eleitoral. Isso é um fetiche. O que há é a
eleição funcionando como um intensificador do debate,
o que significa que o resultado da negociação vai
ser de qualidade.
Valor: Ainda sobre as reclamações, parece que os
governadores enfrentaram muito mais problemas com seus servidores
do que a União. Concorda?
Paiva: A diferença é a negociação.
Relação de trabalho é conflituosa. Mas todos
acham que na administração pública não
há conflitos porque o servidor adere a um estatuto e não
a um contrato de trabalho. Isso criou um senso comum de que essa
relação de trabalho não é conflituosa.
Isso é falso. Há conflitos. Por isso o governo
desenvolveu a negociação. Existe uma mesa permanente
que trata de todas as relações com o servidor federal.
A diferença é essa. Existe um processo de tratamento
desses conflitos.
Valor: O que mudou do governo Lula para o de Dilma?
Paiva: Como sou secretário desde o governo Lula, meu olhar é de
continuidade. E tem um dado importante. Sou secretário
de Recursos Humanos e a partir de fevereiro vou ser secretário
de Relações do Trabalho. Será uma secretaria
voltada especialmente para tratar das relações
com o servidor. Significa valorizar a negociação,
ter uma estrutura própria para isso. A presidenta, então,
consolida um processo de negociação. Vamos ter
uma estrutura em tempo integral para tratar exclusivamente do
relacionamento com o servidor.
Valor Econômico
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