|
A crise e o funcionalismo
público
30/10/2008- Por Antônio Augusto de Queiroz *
A crise nos mercados financeiros, com enormes reflexos na economia
real, tem como causa a ausência do Estado, principalmente
em sua função regulatória. Isso significa
que o Estado, que vinha perdendo importância com o neoliberalismo,
recupera sua capacidade de controle e regulação,
ainda que a um preço elevado.
Se o Estado sempre hostilizado pelo mercado nos momentos
de grandes lucros, mas buscado como último refúgio
nos momentos de grandes perdas retoma em sua plenitude
os monopólios de punir, tributar e legislar, a conseqüência
natural seria a valorização das carreiras do serviço
público responsáveis pela formulação
das políticas públicas, pela regulação
e pela fiscalização dos agentes econômicos.
Mas, na opinião de alguns iluminados da grande
imprensa e da oposição, em lugar de valorizá-las,
essas carreiras, que no caso brasileira acabaram de passar por
uma reestruturação remuneratório, cuja implementação
se dará nos próximos dois anos, deveriam ser punidas,
com a postergação da parcela de reajuste sobre o
subsídio prevista para julho de 2009, sob a alegação
de que o Governo precisa cortar gastos.
Ou seja, a lógica dessa gente é ser contra os investimentos
públicos, prejudicar os programas sociais e cortar gastos,
principalmente com pessoal, para que o produto dessa economia
seja canalizada para o mercado, seja para a realização
de grandes lucros, seja para socorrê-los nos momentos de
perdas. É a equação de risco zero, de nunca
perder, sempre com a garantia de privatização do
lucro e socialização dos prejuízos.
O Governo brasileiro precisa ter juízo para não
embarcar nessa canoa furada. Deve manter o reajuste dos servidores,
garantir os recursos do PAC e dos programas sociais e intensificar
o crédito, para manter a economia aquecida, punindo com
a mão forte do Estado os especuladores e as instituições
financeiras que se recusarem a emprestar os recursos desbloqueados
com a redução ou eliminação dos depósitos
compulsórios.
A crise do mercado financeiro está para o capitalismo
assim como a queda do muro de Berlim esteve para o socialismo,
mas a chamada grande imprensa, a serviço do neoliberalismo,
esconde as causas dessa tragédia, que prejudica a todos,
em particular, ao setor produtivo. Ninguém responsabiliza
os organismos oficiais, inclusive os multilaterais, encarregados
da regulação e da fiscalização do
sistema.
Sempre que há uma crise como esta, produto da ganância
e da busca sem controle do lucro, o contribuinte é chamado
a pagar a conta. O controle e a regulação estatal,
para prevenir situações como estas, tendem a merecer
uma atenção especial, inclusive nos países
como os Estados Unidos, razão pela qual deve ser valorizado
o papel do Estado e de seus servidores na prevenção
dessas crises e, em conseqüência, na proteção
do contribuinte, único sacrificado.
O contraditório nesse processo é que quando mais
se necessita do Estado, e em conseqüências dos servidores
públicos, para evitar ou prevenir descaminhos e incapacidades
dos mercados, surjem idéias malucas como estas de postergar
reajuste salarial das carreiras de Estado, como forma de sobrar
recursos para socorrer o mercado financeiro. Para essa gente,
o servidor deve ser (sempre) a variável do ajuste.
* Jornalista, analista político e diretor de Documentação
do Diap
|